A discrição está no jeito pacato de se expressar, nas roupas, no gosto musical. A baianidade salta pela boca na primeira palavra. E ele quer que seja sempre assim. Gabriel trocou Salvador pelo Rio de Janeiro há quase sete meses, mas conserva o sotaque arrastado intacto. A vida na capital fluminense também não mudou em nada a tranquilidade do meia-atacante. Mas a saudade da terra natal cresce a cada dia.

- Como baiano, sinto falta de tudo. É a terra onde eu nasci, o lugar que amo. Sinto falta de tudo lá.

Aos 23 anos, Gabriel realiza o sonho de defender o clube de um grande centro do futebol brasileiro, mas teve de deixar para trás uma paixão. As cores do Bahia sempre estiverem presentes na vida dele, ainda que a mãe e avó preferissem o rubro-negro do Vitória. Mas o pai e o avô, Flávio, campeão brasileiro pelo Tricolor em 1959, trataram de doutriná-lo.

- Comecei a ir para a Fonte Nova com oito, nove anos, e não parei mais. Nos jogos mais importantes do Bahia eu estava lá.

Gabriel só esteve na Fonte Nova, a antiga, como torcedor. A nova, moderna e pronta para a Copa do Mundo do ano que vem, ele vai conhecer nesta quarta-feira. O Bahia recebe o Flamengo às 21h50m (de Brasília) pela décima rodada do Brasileiro. Hora de voltar para casa, mas desta vez como adversário. Camisa 10 do Rubro-Negro, ele encara o reencontro com naturalidade.

- O Bahia é a equipe que me deu todas as oportunidades possíveis, mas hoje eu defendo o Flamengo, tenho que fazer o melhor pelo Flamengo.

Confira o bate-papo com o jogador:

Qual foi a última vez que esteve em Salvador?

Desde a folga no início de junho para a Copa das Confederações que não vou lá.

O que sente mais falta da Bahia?

Como baiano, sinto falta de tudo. É a terra onde eu nasci, lugar que eu amo, sinto falta de tudo lá.

Nunca jogou na Fonte Nove, não é?

Na Fonte Nova só fui como torcedor. Só pisei no gramado quando o Bahia subiu de divisão, entrei no gramado no meio da festa. Não era nem da base ainda. A torcida entrou, eu estava no meio e entrei também para comemorar o acesso (risos).

Como vai ser enfrentar o Bahia?

É a equipe pela qual tenho carinho imenso, me projetou para o futebol. É a equipe que me deu todas as oportunidades possíveis, mas hoje eu defendo o Flamengo, tenho que fazer o melhor para o Flamengo.

A família é toda tricolor?

Quase toda, minha mãe e minha avó torcem para o Vitória. Mas meu pai, praticamente a família toda, é tricolor.

E de que lado vão estar na quarta-feira?

Acho que do lado do Gabriel (risos).

Sua história é muito curiosa pelo fato de ter sido descoberto num baba (pelada) pelo atual presidente do Bahia, o Marcelo Guimarães. Mas como começou a relação de torcedor com o clube?

Sou torcedor sempre, desde pequeno. Meu avô foi campeão pelo Bahia em 59, o Flávio. Tem essa ligação, como torcedor do Bahia sempre ia aos estádios. Comecei a ir para a Fonte Nova com oito, nove anos, e não parei mais. Nos jogos mais importantes do Bahia eu estava na Fonte Nova. Deus me deu a oportunidade de defender o Bahia, clube que eu era torcedor, e isso foi muito importante.

Você falou que era torcedor. Não torce mais pelo Bahia?

Torço pelo sucesso do Bahia sempre. Acompanho as notícias. Sempre que posso vejo os jogos. Tenho muitos amigos lá, é o clube que desde pequeno aprendi a gostar. Torço para que o Bahia se dê muito bem.

Chega a ser estranho se preparar para enfrentar o Bahia, para tentar derrotar o time do coração com o Flamengo precisando de vitória?

Futebol é assim, tem que encarar da melhora maneira, estou defendendo as cores do Flamengo, precisamos da vitória e vamos em busca.

Como foi o processo até ganhar um espaço no time do Bahia?

Muito sofrimento, era um dos últimos atacantes do time júnior, tiveram muita paciência comigo lá até eu chegar no sub-23. Aí me colocaram no profissional e fui entrando aos poucos. Tinha chance, às vezes de titular, muitas vezes no banco, às vezes era cortado. Mas tive paciência e perseverança.

Você imaginava em tão pouco tempo vir para o Flamengo, vestir a 10, e voltar para a Fonte Nova contra o Bahia?

Não imaginava. É como se fosse um sonho. O Mano ainda não escalou o time, espero jogar para defender o Flamengo.

O que o pessoal de lá costuma dizer sobre esse seu crescimento?

Muitos acreditavam em mim, fiz uma boa temporada pelo Bahia no ano passado, acreditavam em mim pelo que viam. Para eles não foi muita surpresa. A surpresa foi mais para a torcida, para quem estava de fora.

Quem é que está lá que você vai poder reencontrar?

Quase todos, eles mantiveram a base do ano passado. Quase todos são meus amigos lá.

E quem são os mais próximos?

Tem o Élder, o Lomba, Souza, Titi. Todos são meus amigos.

Conhece bem o time. Vai poder ajudar o Mano?

Posso ajudar, apesar de o treinador ser diferente (Cristóvão Borges), o esquema é diferente agora, mas conheço as características dos jogadores.

Quem merece cuidado?

Estão com um time bom, armado, ajustado. Talisca vem jogando muito bem, Fernandão está bem, o Marquinhos Gabriel... É uma equipe veloz, temos que tomar cuidado.

Perdeu alguma coisa da sua baianidade?

Não, sou baiano, não tem jeito. As comidas, tudo, não perdi nada. Meu jeito de ser é o jeito baiano.

Que lugares de Salvador você frequentava e que sente falta?

Não sou muito de sair. Vou para Salvador e fico na casa de minha mãe e minha avó, na Cidade Baixa, Jardim Cruzeiro. E é ali que me sinto bem, com meus amigos de infância. Não sou de sair muito de lá.

O povo baiano tem uma ligação muito forte com religião. Os orixás, o candomblé. Qual a sua relação ou crença?

Eu acredito em Deus só. Minha crença é só em Deus, nas outras eu não acredito.

Sua família toda é assim?

É. Só minha avó que faleceu que era evangélica.

E música, gosta de música? O baiano tem essa coisa do ritmo, da ginga. Curte isso?

Curto axé, gosto muito de partido alto, do pagode meio romântico, curto bastante. Minhas músicas são mais lentas.

E é bom de dança?

Nada! Não é minha praia (risos).

Aproveitava o Carnaval na adolescência?

No Carnaval sempre ia para a ilha, não ia para avenida. Não era meu forte. Preferia um lugar mais tranquilo.

Você não perdeu nada do sotaque. O pessoal aqui do Flamengo, os cariocas, brincam com isso?

Espero não perder, meu jeito, meu sotaque, gosto muito. É meu jeito baiano de ser. Espero guardar para o resto da vida. O pessoal aqui é bem tranquilo.

Tem alguma gíria que use mais?

No dia a dia o baiano fala muito "velho", mas fala "véi". "Ei, véi". É normal, não tem como mudar (risos).

E essa coisa da preguiça...

Mentira, cara. Tem preguiça não. Baiano é trabalhador, acorda às quatro da manhã para trabalhar. Não é preguiçoso, não. Rotularam o baiano errado.

Sua rotina no início de carreira mostra isso?

Acordava dez para as cinco para treinar, pegava dois ônibus para chegar às sete horas no Fazendão. Depois do treino duro, voltava mais uma hora e meia em pé no ônibus. Como é que é preguiçoso. Tem essa história, não (risos).

Juan fez o gol pelo Internacional contra o Flamengo há duas rodadas e chegou a pedir desculpas aos rubro-negros pela relação com o clube. Já pensou nisso? Na sensação de fazer um gol no Bahia?

Ainda não pensei nisso, deixo para a hora do jogo. Espero fazer gols. Se vou comemorar? Ainda não sei dar a resposta.

O que achou na Fonte Nova?

Vi por fora. Muito linda, muito bonita. A ansiedade sempre é para jogar, estar em campo é a coisa que mais gosto.


Fonte: GE

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