Flamengo e Ambev celebraram neste fim de semana o salto do programa de sócio-torcedor do Rubro Negro carioca. Desde que o clube conquistou a vaga na final da Copa Perdigão do Brasil, o número de associados cresceu a uma taxa de 2 mil pessoas a cada dia. Hoje, o Flamengo já passou a marca dos 51 mil sócios e caminha para bater até o meio da semana o Santos no ranking de maiores programas do país.

Mas o sucesso flamenguista é também a prova de quão errado é o conceito do programa de sócio-torcedor no país. O boom do Flamengo está ligado, exclusivamente, a um outro fator, que é a venda de ingressos para jogos apenas para os sócios-torcedores. Apesar de não afirmar categoricamente isso, o que o Flamengo promoverá na decisão da Copa do Brasil é exatamente isso. Primeiramente serão oferecidos ingressos apenas para os sócios-torcedores. Depois, se sobrar, os torcedores “comuns'', serão agraciados.

Juridicamente isso corre o risco de ser considerado uma “venda casada'', em que o benefício só é concedido ao torcedor que paga a mensalidade. Mas vamos desconsiderar esse ponto, valendo-se do princípio que o departamento jurídico do clube esteja muito bem respaldado quanto a ele.

O salto no sócio-torcedor do Flamengo só acontece por causa da final da Copa do Brasil. Ao colocar como preferencial a venda de ingressos para esse tipo de associado, o clube força o torcedor a pagar R$ 39,90 pela mensalidade do plano. É o preço a se pagar para tentar conseguir ver o jogo decisivo do Flamengo.

Mas e depois da final? Quantos desses novos sócios permanecerão? Quantos associados anteriores a esse boom terão interesse em manter suas contas se não conseguiram ser contemplados com o ingresso mesmo tendo o programa?

Esse é o maior problema dos projetos de sócio-torcedor pelo Brasil. Os clubes têm se pautado pelo “Torcedômetro'' criado pelo Movimento por um Futebol Melhor e visto a operação como varejo. Ou seja. O que interessa é subir no ranking do número de associados. O que fazer para reter esses clientes e motivá-los a sempre consumir mais está, hoje, totalmente fora dos planos.

Manter atrelado ao ingresso de jogo o programa de sócio-torcedor é um erro. O salto atual do Flamengo mostra claramente isso. O clube poderia, muito bem, criar diversos benefícios para atrair o torcedor. Não o faz, deixando apenas para a preferência na compra do ingresso o único motivo palpável para a pessoa se associar.

Isso resolve o problema de curto prazo. Num universo em que cada vez mais associados estarão presentes aos programas, o que antes era um benefício torna-se algo “comum''. É, mais ou menos, o tal do sorteio de ingressos da Fifa. Muita demanda para pouca oferta. Só que, no caso do sócio-torcedor, como a pessoa é obrigada a pagar uma mensalidade, vai chegar uma hora em que ela fará as contas e perceberá que não vale a pena manter o investimento e raramente conseguir o ingresso para o jogo.

O caso do Fla evidencia essa situação. O sócio-torcedor só cresceu pelo fato de o time chegar à final da Copa do Brasil. E se o Flamengo perder a decisão? Por qual motivo o torcedor seguirá vinculado ao clube? Para ver jogos do Cariocão, do Brasileiro e da Copa do Brasil no ano que vem? Em fases iniciais?

Os programas de sócio-torcedor precisam se ver como um clube de benefícios exclusivos e intangíveis para seu associado, e não como operação de varejo. Até porque, em breve, os estádios deverão conseguir atrair mais receita de quem não é sócio-torcedor do que de quem é associado. E, aí, os clubes perceberão que é mais rentável trazer pessoas diferentes para o estádio do que sempre a mesma turma. Mas isso, claro, deve levar ainda uns dez anos para acontecer. No mínimo…

Fonte: Blog do Erich Beting